| sexta-feira, 31 de julho de 2009 |
| Nós monstros |
Passemos à cave. É lá onde vivo, donde venho todas as manhãs e para onde regresso todas as noites. Aqui é a sala onde me divirto, aqui tomo banhos longos, ali, tens de ver aquilo, é o meu recanto preferido, onde medito nos meus assuntos, sempre que posso.
Um cheiro de comida entra pelas paredes, um fumo de dor de cabeça está cativo num quarto, as tuas palavras, monstro, são as mesmas de sempre. O que te vale é que estamos numa cave e não tenho ainda para onde fugir. Quando isso acontecer deixarei tudo para trás e agirei como se não te conhecesse porque afinal é verdade, quem és tu? Porque queres saber os nossos nomes? Porque é que as coisas nunca são boas o suficiente para ti? Para que me desperdiço na tua presença?
Não olharei para trás nem fugirei de ti, eu próprio sou suficiente para me amaldiçoar para sempre.
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PS:
Estarei hoje a partir das 20.30 a assinar autógrafos na Bertrand das Caldas da Rainha, numa iniciativa integrada na Feira do Livro local. Todos os meus livros estarão disponíveis. Apareçam se puderem. Será um prazer.

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posted by Fernando Ribeiro @ 7:45  |
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| sexta-feira, 17 de julho de 2009 |
| Amsterdão |
Descendo nos vapores dos outros Cegando com as luzes dos outros Andando sem parar, sem olhar para trás, Olhando sem parar, andando sem olhar.
Sentamo-nos Sacos feitos prontos para a partida Levantamo-nos Sacos escondidos para a partida Perguntas às quais não me apetece responder. Pessoas com quem nunca me apeteceu falar. Para quê?
Quando passarmos a fronteira à noite estarei um dia mais próximo de ti e longe de todos os outros. |
posted by Fernando Ribeiro @ 11:31  |
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| segunda-feira, 29 de junho de 2009 |
| Deixar-te cair |
Um novo poema meu:
Deixar-te cair. Deixar-te cair Para que renasças Em ti, E só para ti.
Afastar-me do teu caminho Tirar os dedos que te tapavam a boca Com mel e escuridão, Para que respires E que no teu respirar Encontre restos do que foi o meu.
A tua paz será sempre a minha paz.
O teu viver iluminará Um mundo melhor que o meu Sei que sou apenas o que de mortal tem a sombra Que teu sol projecta. Nascerás sempre Mesmo que não seja para mim. |
posted by Fernando Ribeiro @ 17:49  |
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| terça-feira, 16 de junho de 2009 |
| triangular |
A Casa Pessoa foi um sucesso. Sucesso porque foi sobretudo uma tarde agradável em que se falou de tudo, até do meu casaco, mas sempre a partir dos livros. A título de curiosidade aui ficam os títulos das obras que escolhi:
World Without Us (Alan Weissman, Picador)- não-ficção. um livro sobre o que acontece à Terra e aos vestigios humanos na eventualidade do desaparecimento da raça humana.
Antologia Poética, Justo Jorge Padrón (Teorema, presumo...)- o meu poeta preferido de todos os tempos.
Zorba, o Grego. Nikos Kazantsakis (Ulisseia)- curiosamente intitulada em Portugal O Bom Demónio. a melhor história e a personagem homem mais verdadeira da história da Literatura, esqueçam o dorian gray lol
Levei três livros como se fosse para a estrada, levo sempre uma biografia/não ficção, poesia e romance.
Por fim o livro que ando verdadeiramente a ler (ainda): Perdido de volta, Miguel Gullander. Veneno e dinamite. Um dos melhores livros que já li ou ando a ler.
Outras coisas:
Como já disse por diversas vezes que ainda estou na ressaca da poesia dos Diálogos... Tenho andado afstado dela. Concentro-me com entusiasmo nas novas letras de Moonspell e num projecto de conto de ficção a convite da Gailivro que sairá no fim do ano e que melhor conta vos darei entretanto.
Mas leio muita e escrevo alguma. Eis uma gota nova:
Porque desafiar-te, se és superior? Porque negar-te, se existes dentro de mim? Porque ousar ser como tu, se me sobreviverás? Porque temer-te se és minha semente?
És o que vale a pena.
Um abraço cheio de palavras! |
posted by Fernando Ribeiro @ 9:57  |
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| sexta-feira, 29 de maio de 2009 |
| Mais poesia |
Antes do regresso um convite:

Seria um prazer ver-vos por lá.
Agora sim o regresso, com o inevitável pedido de desculpas em virtude da pesada agenda dos Hoje (Amália) e dos meus e nossos Moonspell. La Nave Va e ainda bem, estou grato a todos.
Consideração:
Uma das melhores prendas que alguma vez me deram foi um daqueles jogos magnéticos de poesia, que consiste em pequenas etiquetas com palavras (eu tenho em Inglês, não sei se existe em Português) seleccionadas que se estendem desde a mais poética (shadow, void, moment) até às mais comuns (yellow, this, from). As combinações são imensas e escrever com elas é, sem dúvida, magnético em todos os sentidos. Tenho feito nascer coisas de forma descomprometida, sem o peso das teclas ou das penas e muitas dessas novas vidas que se encostam ao meu friogorifico e aos meus inoxs, vão ganhar vida, em especial, no novo disco, nas novas letras de Moonspell. Verifiquem em:
http://cgi.ebay.co.uk/MAGNETIC-POETRY-KIT-ORIGINAL-EDITION-FRIDGE-MAGNETS_W0QQitemZ300316835292QQcmdZViewItemQQptZUK_Toys_Creative_Educational_RL?hash=item45ec473ddc&_trksid=p3286.c0.m14&_trkparms=72%3A1683%7C66%3A2%7C65%3A12%7C39%3A1%7C240%3A1318%7C301%3A1%7C293%3A1%7C294%3A50
Estou apaixonado por este escrever assim.
Voltando ao papel, um poeta imenso que ainda não conheci pessoalmente mas que tenho todo o gosto e honra em divulgar aqui no meu modesto e sempre atrasado blog: Joaquim Cardoso Dias, O Preço das casas, Ed.Gótica, 2002. Aqui seguem alguns belíssmos exemplos:
PREPARAÇÃO DE UM RAPTO
em silêncio estes animais entram com a noite nos meus passos e nem sequer me dói o teu nome atormentado pelas mais altas torres devagar fecho os olhos neste segredo e o vento ressoa como um relógio vazio na casa onde estou só no peito onde estou contigo
A IDADE DO FOGO
nas pálpebras a fuga ainda é possível espio o anoitecer por detrás do crespúsculo e nunca sonhei com essa mentira
as noites imensas respiram onde a minha memória te imortalizou ouço-te e escuto e grito no teu rosto assim abro a janela e tenho medo de ouvir a tua voz
em pleno voo o tempo solidificou este monólogo as palavras que me restam falam devagar enquanto a noite cresce demorando a loucura e a maldição de ter amado
amanhã é o último dia do tempo agora de repente ainda espero por ti
MITOLOGIA
finjo que acredito em ti: amo-te e sem o saber todos os sonhos caíram no fim das tuas palavras antes da única verdade se ter ferido encostada tanto ao meu peito
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Belíssimo e influente, muito influente para mim. Até ao meu regresso com mais palavras, sempre. |
posted by Fernando Ribeiro @ 7:14  |
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| quinta-feira, 30 de abril de 2009 |
| Qualquer sitio serve |
Acordo de dezassete horas de paz para o barulho de tijolos secos do dia. Fecho os olhos na esperança de mais dezassete horas de ti. Mas não consigo. E saio lá para fora na atenção do que se pode atravessar no meu caminho. Para além da igreja abandonada por espíritos e corpos que rasga a noite dos céus como um espigão assassino, para além do barracão ocupado por momentos de som esquecidos nos ouvidos, para além de tentar e da desilusão do miúdo que agora tem músculos e voz de homem; nada é o que parece mas o mais absoluto silêncio é perfeito na silhueta fechada de todas estas coisas. Hoje passei o dia de olhos fechados a ver-te. |
posted by Fernando Ribeiro @ 18:17  |
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| quinta-feira, 16 de abril de 2009 |
| Rock sem poetas |
Num blog de poesia que escapa para as letras nunca foi minha intenção criar polémica ou sequer ventilar um arzinho que seja que nos lembre esse vento malfazejo que sopra na maioria dos blogs e que quase, numa descrição do seu “adn” seria uma característica fundamentalmente apontada. O áspero guardo-o para outro blog que tenho (Spectator) e que sendo de opinião, presta-se mais a essas ventanias.
Mas não posso deixar de manifestar a minha frustração pela ausência de cinco de um total de oito pessoas na mesa redonda de Rock e Literatura que tive o prazer de participar no passado dia 7/7 pelas 18.00 na Faculdade de Letras de Lisboa. Segundo a organização todos tiveram contratempos pessoais e profissionais (o que compreendo e quero respeitar o mais que possa) sabendo, embora, que, pessoalmente, já fui a muita coisa adoentado (escrevo, carregado de cêgripes e hextrills, a partir de um Starbucks do aeroporto de Bruxelas), e que, essa semana, e esse dia em particular, vim de entrevistas com o projecto Hoje (Amália Hoje) e ensaios com os Moonspell, de onde vim directamente para a Faculdade, chegando a horas e apenas contactando com esse êxodo in loco, perto da hora do início do mesmo.
Restou uma hora de conversa, minha, e do JP Simões (e da professora/moderadora, que confesso, esqueci o nome), que espero tenha sido válida para as pessoas que lá foram, provavelmente esperando mais “quórum”. Não querendo ser, de modo algum, injusto para as pessoas que tiveram de faltar, lamento que assim tenha sido e que nós, os “das letras”, não encarem com a seriedade que devemos a nossa própria credibilidade enquanto poetas eléctricos. De realçar que nenhuma justificação ou pedido de desculpas foi comunicado, pelo menos enquanto lá estive, às pessoas na audiência.
Em jeito de fraco consolo fica o texto da minha apresentação com a menor edição possível (ponham-lhe uma nódoas em cima):
Poéticas do Rock
O respeito da normalidade
É fundamentalmente estranho estar aqui sentado na faculdade onde me angustiei no e pelo curso inacabado de filosofia, perdido nos corredores da reprografia azul; confraternizando pelo melhor spot na Biblioteca do Departamento (Matos Romão) onde eu lembrava alguém à Sra. que tomava conta, alguém das novelas; ou partilhando um chapéu de chuva com a miúda petite mas gira à brava da turma X, em andamento para os pavilhões onde reinava a aula de Epistemologia das Ciências Sociais (ave VS Marques!), por aí , só algumas memórias instantâneas de um ex- FLUL. Ia dizendo, é fundamentalmente estranho estar aqui sentado numa mesa redonda de faculdade, com tantos ilustres da palavra e da performance a partir da mesma, para justificar, debater, ou, constatar uma evidência que por muito repetida ao longo destes anos todos de poética Rock ainda encontra dificuldades de absorção académica e mediática e, por vezes, massiva e também diferenciada, por razões que me escapam tão evidentemente como o facto de isto ser assim e não de outra maneira.
As letras das músicas, das boas, são poesia pura. Ou porque não, na era dos compartimentos, um segmento novo da poesia com vida e luz e público próprio. Esta premissa é o mais fácil. Todos aqui o sabemos e nisso acreditamos. Difícil é ir a algum lado e fazer com que tal seja encarado com a normalidade que lhe conferiria a dignidade e o respeito devidos.
Cheguem ao pé de alguém, qualquer alguém, até um amante de música e digam-lhe: olha aqui esta poesia do Adolfo. Cheguem ao pé de alguém e digam também: olha aqui este poema do Herberto Helder. Até aqui nesta sala a reacção é imediata sobre quem é o poeta, não digam que não. É o peso da tradição, da comunicação, dos livros, da escolha de vida, dos palcos, da agitação, dos sítios que a alma frequenta, do recato até por vezes snob dos poetas só poetas. É por isso que de alguma forma luto. Não que nos vejam como um fenómeno estranho confinado a colóquios mas que nos vejam como poetas normais como os outros que trazem as palavras para os palcos e as consagram à musicalidade não imaginada, porque real nos instrumentos e na voz, e, muitas vezes, até mais completa.
As letras são ainda o referencial da linguagem, do código/alfabeto que identificamos e perante a música apresentam no leitor/ouvinte uma sensação diferente, menos abstracta, mais de mensagem (desenvolver)
Posto isto o meu estilo:
Autores fetiche do Metal: Tolkien, Poe, Baudelaire, Lovecraft, Aleister Crowley, Pessoa, La Vey, a esquadra cientifica Matheson, K Dick, Bradbury, outros Robert E.Howard; Blake, Wilde. A lista é inesgotável e com as suas glórias ou abusos faz do Metal um dos géneros mais literários que conheço.
Onde encontrá-los: lovecraft- metallica, the thing that should not be; poe, annihilator-ligeia, maiden-murders in the rue morgue; bradbury- iced earth, something wicked this way comes; blake: Ulver, the marriage of heaven and hell; pessoa/campos: moonspell opium; crowley- fields of the nephilim; tolkien em todas as ingenuidades; baudelaire, celtic frost superior, tristesses de la lune. Superior 2 ryhme of the ancient mariner- coldridge.
Problemas: alguns decalques menos felizes, algum arranhar de superfície mas residual perante as obras primas da fusão rock, metal, gótico, com as letras. A tal inexistência de normalidade. Então o Fernando escreve poesia? Para os fãs de moonspell n é? Bem também… ou então logo doutor nas apresentações nas bibliotecas do país. Algum relacionamento do rock com o entretainment e não com a cultura.
Conclusão:
- jim morrison o melhor escritor de poemas de rock de sempre dizia certeiramente “quero que as minhas letras sejam poesia, que sejam vistas para além da música, que tenham vida própria” Quem as ler sem ouvir doors que diga o contrário. Agora é fazer com que isto não seja de todo especial, mas simples e adequadamente vulgar.
Nick cave the secret of a love song (explorar)
Vou ler o Oficio Cantante, ainda confio nas palavras. |
posted by Fernando Ribeiro @ 8:18  |
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| sexta-feira, 3 de abril de 2009 |
| Billy Collins |
Nem sempre e se calhar quase nunca as novas tecnologias e as palavras se cruzam tão bem como nos videos da poesia do poeta Billy Collins, disponíveis no youtube.
É curioso ver o crescendo em paralelo de algo que forma muito mais que um todo por intermédio de ser as suas peças, ou partes. Isto é, algo que junto, unido, se eleva para al´me do que é per se, e que coloca o objecto artistico num nivel óptimo de suavidade e beleza e aqui e ali alguma melancolia, daquela boa, que provoca os sorrisos de verdade.
É com um sorriso desses que vos desejo um bom fim-de-semana e uma melhor semana. Vejam na luz dos vossos ecrãs, esta voz, estas palavras,estas imagens que me foram passadas pelo meu bom amigo JL Peixoto e que aqui continuam como círculo virtuoso:
http://www.youtube.com/watch?v=iuTNdHadwbk&feature=related
PS: Obrigado a todos pelas mensagens e presenças na apresentação de Amália Hoje. O disco estará disponível em finais de Abril.
PS1: As Poéticas do rock já arrancaram. Estarei lá na próxima Terça, pelas 18.00 na Faculdade de Letras. Mais info em: http://www.fl.ul.pt/centros_invst/teatro/pagina/centro-estudos-teatro.htm http://www.poeticasdorock.blogspot.com/ poeticasdorock@gmail.com |
posted by Fernando Ribeiro @ 9:03  |
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| quarta-feira, 25 de março de 2009 |
| Amália Hoje |
Quis o destino que fosse escolhido para dar voz a canções da Amália juntamente com amigos. Tudo isto é fado e fado é uma espécie de amizade, que relaxa a rigidez e o caractér sacrossanto do tema e ajuda a vencer dificuldades e a exaltar as poucas certezas que comem o medo e lhe deitam a língua de fora. Os meus amigos nesta aventura são o Nuno Gonçalves que tudo fez desde dirigir orquestras a seleccionar os temas que lhe pareceram mais consentâneos ao espírito e letra da 3 época da artista; a Sónia Tavares, que emprestou uma alma profunda aos seus lábios que proferiram os sentimentos das canções; e o talentaço Paulo Praça, o nosso ponta de lança e organizador, uma espécie de Wolf do Pulp Fiction que esteve sempre lá quando era preciso música e que nos faz sentir grandes porque está do nosso lado e pequenos quando ao lado de talento destes. O Nuno e a Sónia são dos The Gift e o Paulo está agora a solo mas tem os Plaza e em tempos idos os Turbojunkie.
Se tudo correr bem vão ouvir falar muito deste projecto de amigos e amantes de música verdadeira e de agitar as àguas paradas em prol da qualidade e da modernidade. Se estão curiosos visitem este link: http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1175736&seccao=M%FAsica, já levanta o véu um bocadinho.
A mim, que sofro de melancolia, calhou-me interpretar um fado cujo poema foi feito pelo punho e dor da própria Amália e que me colheu de surpresa tal a sua força, intensidade e cofre aberto. Pelo que para aqui o transplanto:
Grito
Silêncio Do silêncio faço um grito E o corpo todo me dói Deixai-me chorar um pouco De sombra a sombra Há um céu tão recolhido De sombra a sombra Já lhe perdi o sentido Ó céu Aqui me falta a luz Aqui me falta uma estrela Chora-se mais Quando se vive atrás d'ela E eu A quem o céu esqueceu Sou a que o mundo perdeu Só choro agora Que quem morre já não chora
Solidão Que nem mesmo essa é inteira Há sempre uma companheira Uma profunda amargura Ai solidão Quem fora escorpião Ai solidão E se mordera a cabeça Adeus Já fui p'ra além da vida Do que já fui tenho sede Sou sombra triste Encostada a uma parede Adeus Vida que tanto duras Vem morte que tanto tardas Ai como dói A solidão quase loucura
Este é o poema do fado interpretado no funeral da Amália. Os seus versos estão compilados num livro Versos pela Cotovia. O disco sai dia 27 de Abril. |
posted by Fernando Ribeiro @ 9:55  |
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| sexta-feira, 13 de março de 2009 |
| Algumas viagens sem ti |
Outro da gaveta com a tua permissão :
Dortmund
Regresso. O hálito de schnaaps corre na rua da estação, um rio arrastando as réstias das tribos em súplica de ar, com as cabeças levantadas ao céu.
O fumo de um cigarro de um total de quarenta, cordilheira de nuvens de um negro mais profundo que o dos céus, gravada como carvões por usar, tinta negra sobre papel negro. Nós, entre todos sozinhos na desilusão de voltarmos e encontrarmos tudo na mesma apesar de todos se terem dado bem.
O mesmo sucesso de cabelos de meses no chão, a mesma roupa da cama, as nódoas nos mesmos sítios, as cidadelas de bichos no lavatório da cozinha, por dentro das paredes, correndo rente às portas, no branco falso do tecto. Sucesso que não me deixa em paz, de pessoas a utilizar, o cheiro de café pegado aos dentes, o trilho sem parar do comboio cortando a neve, indo a parte alguma, as casinhas amontoadas com pessoas lá dentro agachadas perante quem chega no sopro do Verão Alemão.
A chuva dá-nos nas costas dizendo-nos adeus, até à próxima maré que traga os nossos despejos até à cidade que vive no nosso nunca mais.
Vingança.
Sugestão para dia 19, próxima Sexta:
Debate e semana temática de celebração do bicentenário de Edgar Allan Poe. http://www.fl.ul.pt/poe_gothic_creativity/ Dia 19 de Março: 18h15-20h00: Arte Fantástica em Portugal (com António de Macedo, Fernando Ribeiro, Filipe Abranches, Filipe Melo, Maria Antónia Lima, Paula Ribeiro) I Fantastic Art in Portugal (with António de Macedo, Fernando Ribeiro, Filipe Abranches, Filipe Melo, Maria Antónia Lima, Paula Ribeiro) – Casa Fernando Pessoa apareçam, divulguem. |
posted by Fernando Ribeiro @ 6:59  |
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| quinta-feira, 5 de março de 2009 |
| Parque Central |
Eu também já me tinha esquecido e por isso vocês não podiam,por isso saber. Uma vez, de regresso de uma tour com a banda pelos EUA, fui acometido de um jet-lag intenso que durou quase duas semanas e me fazia acordar pelas 6.30, 7.00 da manhã. Tu ias trabalhar e eu ia escrever para o parque. Nesse parque a essa hora pouco mais havia que os velhotes a passearem lentos e as pessoas velozes a ignorarem-nos na marcha impediosa da vida. Observei mais do que escrevi mas tenho uma nostalgia hoje dessas alturas mas não desse tempo. E não era por ter de acordar cedo. Não conseguia dormir. Passados anos e dores, ganhei esse direito. O meu pudor era diferente na altura. Ainda sinto alguma vergonha de ir para um parque, com um bloco e apontar escritas. É entrar sem respirar naquela poesia que me arrepia: a do estar sempre a escrever mesmo sem saber porquê. Esse pudor esmagava-o aos poucos num blog que tive mas que não mostrei a ninguém. Sobra dele um print screen guardado algures numa memória mais ou menos portátil e alguns textos que evoco agora na abertura deste cofre:
Park views ( a observação dos cisnes)
1- Quem o vir tão sossegado, a ler e a escrever, tomando a sua cerveja fria, enojado do fumo desde que deixou de engolir ele próprio e das nódoas da mesa que são as mesmas de há anos, não imagina que ele é um demónio malvado, conspirando para derrubar a ordem do mundo e terminar de forma rápida e violenta com a vida de todos que o observam. As cadeiras arrastam um pouco no chão quando os corpos tombam licenciosamente fulminados pelo seu olhar levantado. O empregado tardio aparece com um grande balde e com uma esfregona para limpar o sangue empapado no chão e seco nas paredes. Ele levanta-se, paga sorrindo ao empregado, deixa uma enorme gorjeta e sai não se esquecendo de pedir licença a cada corpo morto que se atravessa no seu caminho.
2- O cabelo é vermelho e fala ao telemóvel com o rasgado sorriso do poder sexual. Passa por mim e assusta-me. Uma criança atrás agarra-lhe a mão livre. Ouço-a a combinar o holocausto para mais logo, depois da noite da barriga cheia, num quarto qualquer dos subúrbios a explodir do calor da maldade.
3- (gazela) Tem um risco enigmático à maneira egípcia em cada olho e não repara em mim pela segunda vez hoje. Não sei o que a faz fugir para tão longe e tão velozmente. Talvez seja o medo que trago aguado nos meus olhos pesados.
4- "Aí não!"- "Vamos um pouco mais aqui para o lado, para a sombra da carne que nos resguardará dos olhares envelhecidos do passado." "Deixa caírem as tuas pernas sobre as minhas e deixa os nossos calores tocarem-se." "Seremos memórias manchadas quando a noite cair. Eu nas tuas mãos. Tu nos meus lençóis. Nós no último suspiro do velhote que nos observava oculto no trono do seu jardim." |
posted by Fernando Ribeiro @ 13:05  |
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| sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 |
| Preâmbulo roubado de lanças |
Há sempre poemas que ficam de fora, sabe-se porquê e sabe-se lá porquê, dos livros. A economia, a edição, a força do livro, tudo aquilo que nos ultrapassa pela direita e nos faz esquecer a arte na obra e pensar mais na sua equilibrada comunicação.
Esse foi o caso deste poema que poderia ser mais um vulto nos Diálogos. Bem haja o arrependimento :) Bom fim de semana!
Preâmbulo roubado de lanças
Preâmbulo roubado de lanças Que furam as pálpebras impondo A primeira luz
O dia entra na cidade pelo lado do rio Estilhaçando as vidraças que nos protegiam no escuro Reviram-se as torres de carne à procura de quem ficou na noite Queimam no chão os restos frios de quem amou, de quem acabou de acabar
Logo pela manhã enquanto as pessoas sobem e descem a rua roubada
teimo contigo de que te amo mais do que aquilo que possas compreender.

post scriptum/curiosidade: PRÉMIO DA CRÍTICA 2008 A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o Prémio da Crítica, relativo ao ano de 2008, a João Brites pela criação de Saga - Ópera extravagante.O júri foi constituído por Ana Pais, Constança Carvalho Homem, João Carneiro, Maria Helena Serôdio e Rui Pina Coelho.O mesmo júri decidiu ainda atribuir três Menções Especiais, respectivamente, à actriz Carla Galvão, ao encenador Miguel Loureiro, e ao encenador Nuno Cardoso.A cerimónia da entrega destes prémios realiza-se no próximo dia 23 de Março (segunda-feira), no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz (Lisboa), às 19h, sendo livre a entrada. Para quem não sabe participei neste espectáculo na personagem Deus Pirata. Fico feliz por todos os que deram tudo neste espetáculo, elenco, o Bando, Banda da Armada, Jorge Salgueiro, a equipa técnica e todos quanto foram ver!!! |
posted by Fernando Ribeiro @ 8:08  |
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| quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009 |
| Primeiras impressões |

A primeira vez que apresentei um livro, em 2001, não sabia o que me esperava. Foi na Fnac do Chiado em 2001, estava lá, para meu feliz terror, muita, muita gente, cheguei atrasado, não conseguia estacionar o carro e passei por todas as peripécias possíveis. Em todo o caso não posso dizer que estava totalmente às escuras: se houve algo que intui nessa altura é que tal como quando se conhece uma pessoa, a primeira impressão é muito importante e há que saber rentabilizá-la com graça e espírito.
Na minha primeira apresentação usei, se a memória não me atraiçoa em demasia, usei Eugénio de Andrade para dizer que "toda a poesia é luminosa mesmo a mais obscura" e Eça, para justificar o meu livro e a sua partilha/publicação, com aquele ditame "galego" do homem que partilha o quarto e a sua história pessoal em Singularidades de uma rapariga loura (o novo filme de Manoel de Oliveira que me terá como ávido e curioso espectador".
Na apresentação das Feridas já tive ao meu lado o meu amigo José Luis Peixoto e, por vezes, o Jorge Reis-Sá e o Valter Hugo Mãe. Costinhas quentes protegidas pelo poema de Padrón e a perda da timidez.
A apresentação do Diálogo de Vultos, a primeira, na Fnac do Chiado foi bem mais atribulada emocionalmente e nem todas as tentativas para segurar dentro de mim a força deste livro perante uma audiência foram bem sucedidas. Livraram-me de males piores a minha amiga Bárbara (Guimarães), um público surpreendido pela minha humanidade, talvez,mas muito caloroso e o filme intenso da minha amiga Dora Carvalhas pontuado pela música adequada e profunda do meu amigo de longa data Luís Lamelas/Euthymia e a minha voz lendo dos Diálogos. (ver video em blog)
Seguiram-se apresentações várias sempre com a generosidade de pessoas como a minha prima Rita Baleiro, da Universidade do Algarve, ou a única e inimitável professora de Barcelos, a minha querida Fátima Aetheria, em Braga e em Barcelos, forças a adicionar aos vultos apresentados.
Na contabilidade das impressões, foram muitos os locais, as ocasiões, os sentimentos. Houve espaço ao humor e ao amor e à dor em ambos. Numa apresentação num festival de cinema deu para brilhar com uma anedota (Duas cabras estão a comer a pélícula de um filme. Pergunta uma à outra: "E que tal?". Resposta: "Bah! Gostei mais do livro."); noutra do Antídoto (livro disco dos Moonspell e José Luís Peixoto) convites para ir a Cabo Verde (nunca fomos) e epítetos de "bébes de Abril"; ressacas na Madeira, enfim tudo um mundo de impressões.
Não sei se para aligeirar o peso dos vultos comecei a ler/enquadrar as apresentações com a divulgação do meu primeiro poema que escrevi em 1991-1992 (11ºano) quase como numa aposta com uma Professora de Psicologia, para ter uma nota melhor (resultou!) e constituia o grand finale de uma aula/trabalho de grupo sobre o suicidio. Este era lido ao som do Adágio para cordas de Samuel Barber (uma das minhas peças musicais) e toda a aula era diferente e down, com excertos de filmes como o Clube dos poetas mortos (Peter Weir) ou Videodrome (Cronenberg), um momento estranho até mas que deu não só para subir a nota como para causar uma impressão em quem lá esteve.
Rezava assim o poema: (texto non varieteur :) - com as rimas próprias dos sweet seventeen)
Não encontrei a beleza
na morte da natureza
na humana omissão
na derradeira confissão
no eterno recalcamento
no asifixiar do sentimento
A espiral humana da cobardia
que venera a hipocrisia
encontram em nós- descrentes-que pomos fim à vida
escape para as torrentes - um escape suicida.
O esforço inglório da vida
nas mãos do herói do século XX termina
o esforço inglório da vida
termina às mãos do suicida
que tremem diante do mistério
que enchem sem cessar o necrotério (!)
Para onde irei? - o dilema eterno
só sei que abandonarei o real inferno
o paraíso perdido é já uma certeza
eu só quero encontrar a beleza
E tinha este aspecto que vem no canto superior esquerdo do post. É um manuscrito original. Durou até hoje :) Obrigado a todos quanto comentaram, continuem a abrir o cofre, até para a semana, bom fim de semana!
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posted by Fernando Ribeiro @ 16:12  |
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| sábado, 14 de fevereiro de 2009 |
| Abandonado jardim |
Criei este blog em 2007 mas, por razões diversas - raiando desde a falta de tempo e organzização até ao excesso ou absoluto defeito de assunto/poema, depressa o abandonei. Continuei, no entanto, a nutrir por ele aquela espécie de carinho que se tem pelos jardins meio perdidos ou também eles abandonados, que são tristes mas tão bonitos que doem e que apetece visitar para nos perdermos na saudável melancolia que cresce nas ervas desalinhadas. Estive a semana passada no Jardim Botânico de Lisboa e por lá pensei nisto.
Chegado a casa, pausa forçada para recuperar da excisão de um lipoma, apeteceu-me repovoar este jardim com palavras e o tornar um pouco mais vivo, no sentido de activo, mas sem perder o tino melancólico que é a essência e a chave do cofre.
Quero pedir desculpas a todos que aqui em vão vieram e em vão seguiram, prometendo, para já, contactar quem comentou neste blog e fazer um bocadinho de divulgação, de modo a trocarmos palavras e sentimentos perante as mesmas.
Sendo quase impossível escolher um disco ou livro preferido, tenho a sorte de saber apontar com exactidão quem é o meu poeta preferido e maior influência quando me sento a escrever poemas meus: o seu nome é Justo Jorge Padrón, nasceu nas Canárias em 1943 e publicou pela primeira vez em 1969. A sua poesia é, para mim, perfeita no timbre, na cor, no tema, na alma e no corpo. Não tem um site oficial mas este http://amediavoz.com/padron.htm faz-lhe as honras possíveis. Inspiro-me muito nas suas palavras e nos caminhos que estas tomam e aquando da apresentação do meu segundo livro As Feridas Essenciais utilizava ( e não era um recurso de à falta de melhor) o seguinte excerto de um poema seu sobre o poema/acto:
Mais que um filho
Mais que um filho, é um escravo, o poema. É parte dos teus sonhos indomáveis, Um farrapo da tua alma sucessiva, Um monte de palavras que salva a tua memória Dos momentos plenos do deserto.
Por vezes é o eco incompreendido Da tua própria consciência ou de outro sangue Que em ti palpita sem que tu o saibas.
(…)
O poema é um corpo abstracto, talvez um ser Misterioso de que és o seu deus único. Podes embelezá-lo ou deformá-lo Com a perversidade de um tortuoso castigo Até torná-lo céptico, canalha ou taciturno, Perante a lucidez dura de teus olhos.
(…)
há poemas obscuros e assassinos que nos espiam com a sua adaga levantada há outros juvenis, tersos, apaixonados, cuja directa luz desnuda o fogo. Também os há ociosos, brigões, lascivos, Curiosos ou ignorantes que perguntam Sem que jamais possamos responder-lhes.
Um poema é, enfim, um látego desditoso Uma alma solitária trespassada de repente Pela densa dor que o convoca
JJ Padrón
A Teorema publica Padrón em Portugal, a tradução é superior, se bem que o original castelhano seja límpido como poucos e também as traduções Inglesas são de primeira àgua. Leiam Padrón e mudem a vossa vida.
Num registo mais mundano espero que este blog ganhe as asas de uma audiência e que se legitime, em beleza, a comunicação pretendida. Todos os meus livros, inclusive o último Diálogo de Vultos foram reeditados pelas Quasi e podem encontrá-los (andaram desparecidos das lojas, bem sei...) em http://www.quasi.com.pt/ Também lhes podem escrever e indagar da livraria mais próxima que os tenha para venda.
Até breve para mais "dor convocada." |
posted by Fernando Ribeiro @ 11:50  |
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